TODO DIA É DIA DAS MÃES - "Estado de Minas - Domingo - 13 de maio de 2007
Dizem que ser mãe é padecer no paraíso.
Pode ser, mas as que conheço padecem é na Terra mesmo. E como!
Assim, digo que ser mãe não é nada confortável, alia prazeres e dores.
Quem tem um filho porque quer, desenvolve um amor tão forte quanto difícil de administrar sem excessos.
O amor materno é tão desmedido, que ameaça retirar a mulher de sua vida conjugal, de seu marido e torná-la simplesmente mãe. Se não tiver companheiro firme o bastante para tomá-la como mulher, afastando-a do papel de mãe ou quaisquer outras atividades que redirecionem suas atenções, temos um grande problema.
O desejo de proteger sua cria é tamanho, que ela ambiciona cuidar de seu filho, e acredita saber o que é melhor para ele, cercando-o de cuidados e atenção, que o impedem, muitas vezes, de se tornar sujeito de seu próprio desejo. É necessário alguém que faça a separação, evitando a exclusividade da atenção da mãe para o filho, porque uma mãe “toda-mãe” ninguém merece. Ela nos devora.
O Dia das Mães levou-me a pensar no quanto aprendi estudando a psicanálise voltada para e sobre nossa humanização. Esse processo de inclusão na cultura só se dá passando por outro, geralmente a mãe, que transmite a linguagem. Com seu olhar nos permite fundar nossa própria imagem e entender que temos corpo próprio e, além disso, nos transmite a faculdade de desejar.
Esse processo implica toda uma subjetivação ou internalização de nossa imagem corporal, assim como a estruturação de nosso aparelho psíquico, que necessita da maternagem para se desenvolver e sobreviver. E isso importa porque crescemos voltados para essa relação fundadora da qual dependemos para sobreviver.
A pergunta de todo filho é: O que devo ser para agradar à minha mãe? O que ela quer de mim? E como não há resposta objetiva que responda a essas perguntas, criamos uma fantasia em relação ao que devemos ser. Essa fantasia pretende concordar o que interpretamos que seja o desejo da mãe, o ideal da mãe, e com aquilo que realmente somos.
Entre uma e outra dessas posições há, invariavelmente, discrepância, uma distância que traz uma serie de conseqüências. O filho que não sofre por isso de fato deve estar totalmente sujeitado ao que manda a mãe. Nesse caso, dizemos que foi devorado pela mãe, porque não se torna dono de seu desejo e cede como sujeito para ser amado.
Esse modelo é seguido nas relações subseqüentes e nós repetimos essas perguntas ao nos deparar com outras pessoas. Talvez uma das razões da dificuldade que temos de dizer não, de frustrar o outro, e de nos diferenciar daquilo que supomos ser esperado de nós.
Essa é a parte mais difícil de ser humano, ou seja, libertar-se das demandas que os outros nos fazem e decidir como atender ou não sem contrariar nosso desejo. Podemos dizer então que as mães são fundamentais e lhes somos muito gratos pela vida, mas ser filho, muitas vezes, também não é fácil, embora a vida seja uma dádiva preciosa e quase ninguém queira perdê-la. Assim, apesar das dificuldades vivemos pelejando para encontrar uma boa medida para também não sermos “todo-filhos”.
E se hoje resolveram comemorar o Dia das Mães é para lembrar a importância delas, embora isso possa ser percebido todos os dias, pois todo dia é dia de mãe e também de filho. E não seríamos filhos sem elas, pois a ciência ainda não chegou lá. E ninguém dispensa os cuidados de uma mãe carinhosa.
Hoje, quem puder não perderá a oportunidade de trocar com sua mãe um gostoso e grato abraço pelo fato de ela existir. Mas, não vamos exagerar e esquecer que a vida é impagável. Logo, não podemos ser tudo o que as mães querem, porque não se paga a vida com a própria vida.

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