Tuesday, June 05, 2007

TODO DIA É DIA DAS MÃES

TODO DIA É DIA DAS MÃES - "Estado de Minas - Domingo - 13 de maio de 2007

Dizem que ser mãe é padecer no paraíso.
Pode ser, mas as que conheço padecem é na Terra mesmo. E como!
Assim, digo que ser mãe não é nada confortável, alia prazeres e dores.
Quem tem um filho porque quer, desenvolve um amor tão forte quanto difícil de administrar sem excessos.
O amor materno é tão desmedido, que ameaça retirar a mulher de sua vida conjugal, de seu marido e torná-la simplesmente mãe. Se não tiver companheiro firme o bastante para tomá-la como mulher, afastando-a do papel de mãe ou quaisquer outras atividades que redirecionem suas atenções, temos um grande problema.
O desejo de proteger sua cria é tamanho, que ela ambiciona cuidar de seu filho, e acredita saber o que é melhor para ele, cercando-o de cuidados e atenção, que o impedem, muitas vezes, de se tornar sujeito de seu próprio desejo. É necessário alguém que faça a separação, evitando a exclusividade da atenção da mãe para o filho, porque uma mãe “toda-mãe” ninguém merece. Ela nos devora.
O Dia das Mães levou-me a pensar no quanto aprendi estudando a psicanálise voltada para e sobre nossa humanização. Esse processo de inclusão na cultura só se dá passando por outro, geralmente a mãe, que transmite a linguagem. Com seu olhar nos permite fundar nossa própria imagem e entender que temos corpo próprio e, além disso, nos transmite a faculdade de desejar.
Esse processo implica toda uma subjetivação ou internalização de nossa imagem corporal, assim como a estruturação de nosso aparelho psíquico, que necessita da maternagem para se desenvolver e sobreviver. E isso importa porque crescemos voltados para essa relação fundadora da qual dependemos para sobreviver.
A pergunta de todo filho é: O que devo ser para agradar à minha mãe? O que ela quer de mim? E como não há resposta objetiva que responda a essas perguntas, criamos uma fantasia em relação ao que devemos ser. Essa fantasia pretende concordar o que interpretamos que seja o desejo da mãe, o ideal da mãe, e com aquilo que realmente somos.
Entre uma e outra dessas posições há, invariavelmente, discrepância, uma distância que traz uma serie de conseqüências. O filho que não sofre por isso de fato deve estar totalmente sujeitado ao que manda a mãe. Nesse caso, dizemos que foi devorado pela mãe, porque não se torna dono de seu desejo e cede como sujeito para ser amado.
Esse modelo é seguido nas relações subseqüentes e nós repetimos essas perguntas ao nos deparar com outras pessoas. Talvez uma das razões da dificuldade que temos de dizer não, de frustrar o outro, e de nos diferenciar daquilo que supomos ser esperado de nós.
Essa é a parte mais difícil de ser humano, ou seja, libertar-se das demandas que os outros nos fazem e decidir como atender ou não sem contrariar nosso desejo. Podemos dizer então que as mães são fundamentais e lhes somos muito gratos pela vida, mas ser filho, muitas vezes, também não é fácil, embora a vida seja uma dádiva preciosa e quase ninguém queira perdê-la. Assim, apesar das dificuldades vivemos pelejando para encontrar uma boa medida para também não sermos “todo-filhos”.
E se hoje resolveram comemorar o Dia das Mães é para lembrar a importância delas, embora isso possa ser percebido todos os dias, pois todo dia é dia de mãe e também de filho. E não seríamos filhos sem elas, pois a ciência ainda não chegou lá. E ninguém dispensa os cuidados de uma mãe carinhosa.
Hoje, quem puder não perderá a oportunidade de trocar com sua mãe um gostoso e grato abraço pelo fato de ela existir. Mas, não vamos exagerar e esquecer que a vida é impagável. Logo, não podemos ser tudo o que as mães querem, porque não se paga a vida com a própria vida.

AMOR DEMAIS

VALE A PENA LER E REFLETIR ... "Estado de Minas - DOMINGO - 15 de abril de 2007"

Uma das lições que deveríamos tentar colocar em prática todos os dias é a que nos deixou Freud em seus Três ensaios sobre a teoria da sexualidade infantil. Na última parte da lição, ele se dedica ao estudo da puberdade e realmente coloca muitos pingos nos is. Devia ser leitura obrigatória para todos os que se candidatassem a ser educadores, pais e mães.
Nela, Freud nos lembra a importância do primeiro amor, o da mãe ou cuidadora, para o futuro da vida sexual da cria humana e que a amamentação prepara esse caminho. Essa primeira relação da criança é uma fonte infindável de excitação e satisfação. Depois dela todas as outras relações serão uma tentativa de reencontro desse primeiro amor. Só que esquecemos tudo isso. E não só esquecemos, somos obrigados pelo pai, por outros interesses da mãe, a reconhecer que não somos tudo para ela, e isso nos obriga a buscar outros amores fora do seio familiar.
Se o pai soubesse a importância de sua entrada nesse idílio entre mãe e filho, não se afastaria acreditando ter perdido terreno para o filho.
Ao contrário, se colocaria em posição de homem desta mãe e nunca abriria mão de sua posição privilegiada por ninguém.
Freud também afirma a importância dessas primeiras relações para que o filho cresça saudável e se torne uma pessoa forte e capaz de realizar tudo aquilo que os seres humanos são impelidos a fazer.
Ressalta a necessidade de dosar a atenção e o amor pelos filhos, pois o excesso de mimo é capaz de prejudicar sua vida.
Podemos pensar, depois de ler este capítulo, que o amor é como uma droga. Vicia. E aquele que recebeu demais jamais se contentará com menores doses, tornando-se adulto infantil, imaturo e exigirá de seus parceiros a exclusividade que um dia recebeu de seus pais. A qualquer sinal de falta, ele entra em crise de abstinência. E se comportará como uma criança mimada, birrenta e ficará emburrada caso seja contrariada.
Agora, leitores e leitoras, venhamos e convenhamos, tem bastante gente assim. E conviver com elas não é nada fácil. Isto quer dizer que muitas destas reações passionais estão relacionadas as nossas vidas e família.
E às teorias infantis que criamos para explicar aquilo que não entendemos bem. Elas se tornam nossas ficções para toda a vida.
O que faz mais mal talvez nem seja a rejeição, como sempre supusemos. Em excesso, tanto rejeição quanto mimo são, os dois, nocivos.
Somos da geração da psicologização da educação. Acreditamos nos ditames da psicologia e da pedagogia modernas, que inibiram os pais de castigar, de punir, de zangar e se importou demais com o bem-estar de suas crianças colocando-as como centro de interesse da família. Sua majestade o bebê foi bastante prejudicado pela pesada coroa colocada sobre sua cabeça: a coroa da satisfação total impossível de realizar.
Alguns pais agem como se os filhos fossem apenas sua continuação, e através deles pudessem corrigir os erros de seus pais. Compensadores de suas próprias frustrações nos filhos, esqueceram-se de que as faltas de seus filhos serão outras e não as mesmas que as suas.
Também vivemos a geração das novas formas de família, como chamamos hoje as famílias de pais separados e casados pela segunda vez, com filhos dos dois casamentos, que inseguros, não sabem como lidar com uma situação sem precedentes.
Seria esse um dos motivos para encontrarmos hoje adolescentes tão arrogantes e autoritários? Em parte sim, pois já é de se esperar a oposição, própria da adolescência, como um desejo de independência e de assumir uma voz própria diferente da dos pais. Por outro lado, são esses os adolescentes criados com excesso de mimo. Se dão direitos demais. E nem sempre se importam com a má impressão que vão causar. Afinal, eles são as majestades de seus pais e só perderão a majestade quando caírem no mundo.
E daí por diante... já sabemos que aprenderão com a vida e à duras penas.